Resumo"Ele não é esquecido, ele não está escutando." A perda de audição é uma das mudanças mais comuns do envelhecimento — e uma das que mais passa despercebida, porque chega devagar e sem dor. Quem escuta menos não se queixa de surdez: vai se calando. Deixa de participar do almoço de domingo, responde fora de contexto, parece distraído. A perda auditiva não tratada está associada a isolamento social, sintomas depressivos e maior risco de declínio cognitivo — e é um dos fatores de risco que podem ser modificados. Existe avaliação, existe tratamento, e quanto antes melhor. A Dra. Ana Laura Bersani (Geriatra, RQE 38440) avalia audição dentro da avaliação geriátrica ampla em Franca — presencial, domiciliar ou por telemedicina.
O que é a perda de audição do envelhecimento? O nome técnico é presbiacusia: a perda auditiva que vem com a idade, causada pelo desgaste natural das estruturas do ouvido interno e da via nervosa que leva o som até o cérebro. Ela costuma ser dos dois lados, lenta e começa pelos sons agudos — que são justamente os que dão clareza às palavras. Por isso a queixa clássica não é "não escuto", e sim: "eu escuto, mas não entendo".
Por que a família demora tanto a perceber
A perda auditiva é silenciosa em todos os sentidos. Ela avança ao longo de anos, e o cérebro se adapta preenchendo lacunas com contexto e leitura labial — até a conta não fechar mais. Alguns motivos pelos quais o problema passa batido:
- A própria pessoa não percebe. Como a perda é gradual, quem escuta menos conclui que **os outros
é que mudaram**: falam baixo, falam rápido, "falam enrolado";
- A família se adapta sem notar. Todo mundo passa a falar mais alto, repetir, sentar mais perto —
e a adaptação vira rotina invisível;
- Um a um, ainda funciona. Numa conversa calma e frente a frente, a pessoa acompanha. A
dificuldade aparece onde há ruído e várias vozes: restaurante, missa, reunião de família, televisão ligada;
- Vergonha. Muita gente esconde a dificuldade porque associa aparelho auditivo a "ficar velho" —
e prefere fingir que entendeu a pedir para repetir pela terceira vez.
Os sinais que valem atenção
Não é preciso teste nenhum para desconfiar. No dia a dia, observe se a pessoa:
- Aumenta muito o volume da televisão ou do rádio, a ponto de incomodar os outros;
- Pede para repetir com frequência, ou responde "hã?" antes de quase toda frase;
- Se perde em conversas com mais de duas pessoas, ou em ambiente barulhento;
- Responde fora de contexto — responde outra coisa, ou concorda sem ter entendido;
- Reclama de zumbido no ouvido;
- Fala mais alto do que precisa;
- Não atende ao telefone ou não escuta a campainha;
- Ficou mais quieta: deixou de puxar assunto, deixou de ir a lugares que gostava, dorme mais no
sofá enquanto a família conversa.
Esse último item é o mais importante e o menos associado à audição. O afastamento costuma ser o primeiro sinal visível — e é frequentemente lido como mau humor, teimosia ou depressão.
O que a perda de audição provoca quando não é cuidada
Esse é o ponto que muda a conversa. A audição não é um detalhe de conforto:
- Isolamento social. Conversar cansa quando exige esforço constante para entender. A pessoa vai
recusando convites, e a vida social encolhe;
- Humor. O isolamento e a frustração de não acompanhar estão associados a tristeza, irritabilidade
e sintomas depressivos;
- Memória e atenção. Quando o som chega incompleto, o cérebro gasta em decifrar o que falta a
energia que usaria para compreender e guardar. A perda auditiva não tratada é reconhecida como um fator de risco modificável para declínio cognitivo;
- Confusão com demência. Quem não ouve responde errado, esquece combinados que nunca chegaram a
ser ouvidos e parece desatento — um retrato que a família confunde com o início de um quadro de memória;
- Segurança. Não escutar a campainha, o alarme, a panela no fogo ou um carro se aproximando é
risco concreto dentro e fora de casa;
- Risco de queda. A audição participa da noção de espaço e do equilíbrio, e a dificuldade auditiva
costuma andar junto com outros déficits que aumentam o risco de cair.
Como é a avaliação
A boa notícia é que investigar é simples e vale a pena. Na avaliação geriátrica, a audição entra como parte do conjunto, não como uma queixa isolada:
1. Escutar a história — desde quando, em que situações é pior, o que a pessoa deixou de fazer por causa disso, se há zumbido ou tontura associada; 2. Examinar o ouvido — vale sempre, porque existem causas simples e reversíveis. Acúmulo de cera (rolha de cerume) é uma delas, e resolve; 3. Revisar os medicamentos em uso — alguns remédios podem afetar a audição ou o zumbido. Qualquer ajuste é decisão médica: nunca suspender ou trocar remédio por conta própria; 4. Investigar o que pode estar somando — doenças crônicas mal controladas, exposição prolongada a ruído ao longo da vida, alterações neurológicas; 5. Encaminhar para o exame de audição (audiometria) e para a avaliação com otorrinolaringologia e fonoaudiologia quando indicado; 6. Olhar o entorno — memória, humor, equilíbrio e participação social, porque é aí que a perda auditiva cobra o preço mais alto.
Um cenário ilustrativo comum: a família marca consulta preocupada com a memória do pai, que "não lembra do que combinaram" e "vive no mundo dele". Na avaliação, aparece uma perda auditiva importante que nunca tinha sido investigada. Tratar o que dava para tratar mudou menos o resultado do teste de memória do que a vida dele — voltou a conversar à mesa.
O que ajuda no dia a dia — enquanto isso
Independentemente da conduta definida na consulta, algumas mudanças simples reduzem muito o desgaste da comunicação:
- Fale de frente, no mesmo ambiente, com o rosto visível — a leitura labial ajuda mais do que se
imagina;
- Fale devagar e com clareza, sem gritar. Gritar distorce o som e soa agressivo; melhor é
reformular a frase com outras palavras;
- Reduza o ruído de fundo — desligue a TV antes de puxar conversa, escolha o canto mais silencioso
do restaurante;
- Uma pessoa por vez. Em rodas de conversa, revezar a fala muda tudo;
- Confirme o que foi combinado, principalmente horário de remédio e de consulta — de preferência
por escrito;
- Trate o assunto sem constrangimento. A vergonha é o que mais atrasa o cuidado, e ela diminui
quando a família trata a audição com a mesma naturalidade com que trata os óculos.
Perguntas frequentes
Perder audição é normal com a idade? +
A audição muda com o envelhecimento — é a presbiacusia. Mas comum não significa que não precisa de cuidado: a perda não tratada afasta a pessoa do convívio, e esse afastamento cobra caro no humor, na memória e na autonomia. Existe avaliação e existe tratamento.
Meu pai não escuta bem, mas diz que está tudo certo. O que fazer? +
Não perceber a própria perda é a regra, não a exceção — ela é lenta, e quem escuta menos acha que os outros falam baixo. Em vez de discutir, traga exemplos concretos e sem julgamento e proponha a avaliação como parte de um check-up, não como acusação.
Perda de audição pode ser confundida com problema de memória? +
Sim, e com frequência. Quem não ouve responde fora de contexto e parece esquecido ou distraído. Por isso a audição deve ser sempre checada quando surge queixa de memória — parte do problema pode ser o que nunca chegou ao ouvido.
Aparelho auditivo é a única solução? +
Não. O primeiro passo é a avaliação para identificar a causa: há situações simples e reversíveis, como acúmulo de cera, e há perdas que se beneficiam de aparelho de amplificação. A conduta é sempre individual, definida depois da avaliação médica e audiológica.
Agende uma avaliação
Se o seu pai ou a sua mãe pede para repetir, aumentou o volume da televisão ou anda mais quieto nas conversas de família, vale investigar a audição — junto com memória, humor e equilíbrio, que caminham juntos. A avaliação pode ser feita com a Dra. Ana Laura Bersani (Geriatra, RQE 38440), em Franca — presencial, domiciliar ou por telemedicina. Para agendar, chame no WhatsApp (16) 99174-0302.
Referências
- Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) — avaliação geriátrica ampla e rastreio de
déficits sensoriais no idoso.
- Organização Mundial da Saúde (OMS) — envelhecimento saudável, capacidade funcional e saúde auditiva.
- Associação Médica Brasileira (AMB).