ResumoNão existe uma idade em que o idoso deva parar de dirigir. O que decide é se a pessoa ainda tem visão, audição, atenção, memória, reflexo e força suficientes para reagir ao imprevisto — e se algum remédio está atrapalhando. A família raramente precisa escolher entre "deixar como está" e "tirar a chave": existem passos intermediários, e a conversa funciona melhor quando começa antes do susto, com o idoso participando da decisão. A Dra. Ana Laura Bersani (Geriatra, RQE 38440) ajuda famílias nessa avaliação em Franca e em São Paulo — presencial, domiciliar ou por telemedicina.
O que significa avaliar se o idoso ainda pode dirigir? É olhar para as funções que o volante exige, uma a uma, e não para o número da idade. Dirigir pede enxergar bem de dia e à noite, ouvir buzina e sirene, virar o pescoço, manter a atenção em várias coisas ao mesmo tempo e decidir rápido. Quando uma dessas peças falha, muitas vezes ela pode ser tratada. Quando várias falham juntas, a conversa muda.
A idade não decide — as funções decidem
A lei de trânsito não estabelece idade máxima para dirigir. O que ela faz é encurtar o intervalo entre os exames de renovação da habilitação com o passar dos anos — e esses exames olham para a aptidão, não para a data de nascimento. A geriatria pensa do mesmo jeito: há quem dirija com segurança aos 85 e quem, aos 68, já não deveria.
Por isso a pergunta útil não é "com quantos anos ele tem que parar?", e sim "o que mudou na forma como ele dirige?". Essa resposta, quase sempre, a família já tem — só não juntou as peças.
Os sinais que a família costuma ver primeiro
Nenhum sinal sozinho fecha a questão. Vários juntos, ou um que se repete, pedem avaliação:
- Amassados e arranhões novos que ele não sabe explicar, ou batidas leves em garagem e portão.
- Se perder em trajeto conhecido, ou demorar a lembrar o caminho de casa.
- Reação lenta a semáforo, pedestre ou carro freando à frente.
- Dificuldade para olhar para os lados ao mudar de faixa ou sair de ré.
- Confundir pedal, ou hesitar em cruzamento sem motivo aparente.
- Passageiros tensos — netos que não querem mais ir junto, o cônjuge que segura no painel.
- Ele mesmo restringindo: deixou de dirigir à noite, na chuva ou na estrada por conta própria.
Esse último sinal merece atenção especial. Quando o próprio idoso começa a evitar situações, ele geralmente já percebeu uma dificuldade — e isso abre a porta para uma conversa mais fácil do que a família imagina.
O que pode estar por trás — e muita coisa tem tratamento
Antes de falar em parar, a avaliação procura o que pode ser corrigido:
- Visão: a catarata causa ofuscamento com faróis à noite e é uma das causas
mais comuns de insegurança ao volante — e tem tratamento.
- Audição: a perda de audição tira a buzina, a sirene e o aviso do
passageiro.
- Medicamentos: alguns remédios para dormir, para ansiedade, para dor forte e antialérgicos mais
antigos dão sonolência e deixam o reflexo mais lento, principalmente somados. É o tema da polifarmácia. Nada deve ser suspenso por conta própria — mas a revisão da lista às vezes devolve segurança.
- Movimento: dor no pescoço, perda de força nas pernas e tremor nas mãos
atrapalham virar, frear e segurar o volante com firmeza.
- Memória e atenção: a perda de memória e os quadros de demência
afetam justamente o que o trânsito mais exige — dividir a atenção e decidir rápido. E costumam afetar também a capacidade de perceber o próprio risco.
Entre "deixar como está" e "tirar a chave" existem etapas
A transição costuma ser mais tranquila quando acontece em degraus, combinados com o idoso:
1. Dirigir só de dia, sem chuva e fora do horário de pico. 2. Trajetos curtos e conhecidos — padaria, feira, casa dos filhos — e nada de estrada. 3. Sempre acompanhado em trechos mais difíceis. 4. Reavaliar em prazo combinado, em vez de decidir "para sempre" de uma vez. 5. Organizar a vida sem o carro antes de parar: quem leva às consultas, ao mercado, aos encontros.
O quinto passo é o que mais se esquece. Para muita gente, o carro é o que garante ir ao encontro dos amigos, à hidroginástica, ao clube. Parar de dirigir sem um plano de mobilidade troca um risco no trânsito por outro dentro de casa: o isolamento.
Como conduzir a conversa
O que mais ajuda é começar cedo, antes de um acidente, e falar de segurança e de cuidado — não de incapacidade. Algumas atitudes fazem diferença:
- Partir do que ele já percebeu ("o senhor comentou que a luz do farol incomoda à noite").
- Falar de fatos, não de rótulos: o amassado da semana passada, não "o senhor não sabe mais dirigir".
- Uma pessoa conduz a conversa, não a família inteira de uma vez.
- Oferecer as etapas antes de falar em parar.
- Apoiar-se na avaliação médica quando não houver acordo — a decisão fica mais leve quando não
depende só da opinião do filho.
Quando já existe diagnóstico de demência, o tema do volante faz parte da mesma conversa sobre como falar do diagnóstico com a pessoa: ele funciona melhor quando a pessoa participa enquanto ainda consegue participar.
Perguntas frequentes
Existe idade certa para o idoso parar de dirigir? +
Não. A lei de trânsito não define idade máxima para dirigir — o que ela faz é encurtar o intervalo dos exames de renovação da habilitação com o passar dos anos. Do ponto de vista clínico, a idade também não decide: há pessoas de 85 anos que dirigem com segurança e pessoas de 68 que já não deveriam. O que pesa é a combinação de visão, audição, atenção, memória, reflexo, força e os medicamentos em uso — e isso se avalia caso a caso.
Quais sinais mostram que meu pai não está mais dirigindo com segurança? +
Os mais úteis são concretos: amassados ou arranhões novos que ele não sabe explicar, se perder em trajeto conhecido, demorar para reagir a sinal ou pedestre, confundir pedal, ter dificuldade para olhar para os lados ao mudar de faixa, passageiros que ficam tensos e o próprio idoso que passa a evitar dirigir à noite ou na chuva por conta própria. Um sinal isolado não fecha a questão; vários juntos pedem avaliação.
Ter diagnóstico de demência significa parar de dirigir na hora? +
Não necessariamente no dia do diagnóstico, mas é um tema que precisa entrar na conversa desde cedo e ser reavaliado com frequência, porque a doença avança e a capacidade de julgar o próprio risco costuma ser uma das primeiras a ser afetada. A decisão é clínica e individual, construída com quem acompanha o caso, e funciona melhor quando a pessoa participa enquanto ainda consegue participar.
Remédio pode atrapalhar a direção do idoso? +
Pode. Alguns medicamentos para dormir, para ansiedade, para dor forte e antialérgicos mais antigos causam sonolência e deixam o reflexo mais lento, e o efeito costuma ser maior quando vários são usados juntos. Isso não é motivo para suspender nada por conta própria: o caminho é levar a lista completa à consulta, porque às vezes o ajuste da medicação devolve segurança ao volante.
Quando procurar avaliação
Vale marcar uma consulta geriátrica quando os sinais acima começam a se somar, quando houve um susto no trânsito, quando há diagnóstico recente de alteração de memória, ou quando a família não chega a um acordo. A avaliação olha visão, audição, memória, atenção, mobilidade e todos os remédios em uso — e ajuda a transformar uma briga em uma decisão tomada junto.
Referências
- Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) — orientações sobre avaliação geriátrica ampla, capacidade funcional, autonomia e segurança da pessoa idosa.
- Associação Médica Brasileira (AMB) — diretrizes sobre uso de medicamentos no idoso e avaliação de comprometimento cognitivo.
- Organização Mundial da Saúde (OMS) — publicações sobre envelhecimento saudável, capacidade funcional e mobilidade da pessoa idosa.
- Código de Trânsito Brasileiro (Lei nº 9.503/1997), art. 147 — exame de aptidão física e mental na renovação da habilitação.